O DIA EM QUE O RÉU PULOU DA JANELA

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Continuando nossa sequência de casos bizarros, esse não decorreu de uma experiência pessoal, as é um fato verídico, protagonizado pela pessoa que viria a ser meu superior imediato quando ingressei o Corpo de Funcionários do TJSP, há tantos anos. 

Era mais um dia comum. No 7ª andar do fórum estava em andamento uma audiência criminal.  Dia cheio, meio da tarde, fórum lotado, um calor abnormal para a estação corrente, sem ar condicionado na sala. Enfim, uma tarde modorrenta e cansativa.  

As janelas haviam sido escancaradas mais cedo pelos funcionários, antes mesmo da chegada do Magistrado, na esperança de alguma promessa de brisa – esperança vã, já que a sala de audiências se abria para o vão central do edifício.  

Era uma audiência que hoje já quase não se vê. O réu (em liberdade condicional) e seu advogado sentados de um lado da mesa, ansiosos e apreensivos. O réu, obviamente, mais que o advogado. Do outro lado, o representante do MP, sisudo como sempre, sem tirar os olhos de sua folha de anotações. Mais cedo no processo, esse mesmo promotor promoveu um pedido nos autos, pedido a revogação do benefício, e o Juiz, como era costume na época, houve por bem convocar uma audiência e confrontar/ouvir o réu em pessoa. Eram ainda os velhos tempos da máquina de escrever, do telex e do telefone a disco e as rotinas eram bem diferentes do que hoje, e tudo corria mais ou menos de forma tranquila. 

Ouvidas as partes e postulantes, o Juiz, que era conhecido por sua impassividade na condução do seu cargo – frio com as partes e advogados, e extremamente severo com seus funcionários, deu início ao ritual monocórdico de ditar a decisão ao escrevente (que depois viria a ser meu “chefe” anos depois), que datilografava com exímia maestria, e de forma muito atenta, as palavras ditadas na imaculada folha carbonada onde era registrada a ata da audiência.  

A tensão aumentava a cada palavra, pois, à medida em que as palavras passaram a fazer sentido para os presentes, se tornara cada vez mais evidente que o Juiz iria mesmo acatar o pedido do MP, e revogar a liberdade provisória concedida.  

Aos poucos, quando finalmente entendeu a situação, o réu (familiarizado com os procedimentos forenses já de longa data) se desesperou, obviamente ante a cada vez mais concreta possibilidade de voltar ao “Cadeião”, como era conhecido o complexo prisional de Pinheiros, para onde fatalmente seria removido dali mesmo. Não suportando mais a tensão, e de total inopino, o réu se levanta abruptamente e, tomado pelo desespero e para absoluta surpresa de todos, avança diretamente para cima do Juiz que, de lado (pois estava virado diretamente para o escrevente), só percebeu o movimento tarde demais.  

Para surpresa de todos os presentes, porém, pois obviamente, naquele átimo, todos imaginaram que ele partiria para algum tipo de agressão em um movimento desesperado, ao subir à plataforma, o réu não parou sobre o magistrado, mas passou por ele – literalmente por cima do Juiz e, para espanto generalizado, atirou-se pela janela aberta como se pudesse voar. 

Seguiu-se um baque surdo e um barulho incrível de coisas grandes se partindo, ao mesmo tempo em que um ruído de gritaria logo se seguiu ao evento. 

Obviamente que todos acorreram à janela espiar: e para a ainda maior surpresa de todos, ao contrário do esperado, ao olharem para baixo, os atônitos presentes não depararam com um corpo estirado ao chão, mas sim com um enorme buraco nas telhas de amianto (que então ainda eram muito utilizadas) que recobriam o anexo da agência da hoje extinta “Caixa Econômica Estadual”, instalada no 3ª andar do prédio que, por ter sido construída depois do antigo e histórico edifício, avançava para dentro do pátio que havia no vão interno do prédio.  

O gatuno atravessou o frágil telhado, bem como o forro de estuque e, em meio aos escombros, “aterrissou” dentro da cuja agência em uma nuvem de pó, paralisando os presentes, e até mesmo o vigia da agência.  

Levantou-se, segundo testemunhas, espanando o pó das roupas com uma mão, a outra, próxima ao corpo como se estivesse em uma tipoia (provavelmente ferida na queda) e, com os cabelos brancos de pó, observou ao redor para se localizar e, alguns segundos depois, como se não tivesse se atirado do alto de um prédio, correu porta afora. 

Do mezanino, desceu os três lances de escada que falavam e saiu para a rua em desabalada carreira.  

Eventualmente ele foi recapturado e acabou cumprindo a pena. Mas desse dia em diante as janelas daquele lado do prédio foram reforçadas com uma tela de aço, e, obviamente, o caso virou chacota por dias, valendo muitas risadas no refeitório e no cafezinho. Com o tempo, o caso acabou se tornando mais uma das lendas que povoam os bastidores do fórum.  

E as vezes, ao lembrar do caso, ainda me pergunto lá no fundo: será que o advogado sabia da intenção do cliente?  

Por Ricardo Manso